amores expresos, blog do DANIEL

Monday, April 23, 2007

Diário Porteño 1

Estou faz apenas 5 dias em Buenos Aires mas parece que faz um mês que cheguei. Estou adorando a cidade, e sinto falta apenas de um fator de estranheza que aposto que está sendo primordial na experiência de nosso amigo JP em Tóquio. Buenos Aires é muito parecida com Porto Alegre, em muitos sentidos. O clima, a estrutura da região central, a presença do rio, a comida, o bairrismo, o fanatismo futebolístico. Mas ao mesmo tempo tudo é diferente: maior, mais amplo, mais movimentado. As mulheres se vestem com muito mais classe; os lugares chiques são chiques com propriedade, nunca com afetação; os prédios são mais antigos, mais imponentes, mais belos. A desorganização é maior. A burocracia é maior. O sistema telefônico é infernal, confuso, injusto, desonesto. Os táxis são baratos. O esquerdismo político é maior. Mas no fundo, lá no fundo, a sensação para quem morou quase toda a vida em Porto Alegre é estranhamente familiar. A língua também não é barreira: meu portunhol é compreendido e cada dia ganha mais ênfase na sílaba "nhol". De certa forma, me sinto em casa desde que cheguei. Meu maior choque cultural até agora foi receber um beijinho no rosto de um porteño a quem fui apresentado. Um verdadeiro defloramento homofacial. É costume entre os homens porteños cumprimentarem-se com um beijo meio de lado no rosto. Bárbaros.

A viagem foi tranqüila, mas logo na chegada tomei um susto: achei que tinha perdido parte do dinheiro para pagar o apartamento. Já estava entrando num acordo com o cara da imobiliária e o proprietário, pra pagar uma parte depois, quando achei o resto da grana no meio de uns papéis da minha mochila (estranho, porque eu tinha guardado o dinheiro numa pochete daquelas que ficam dentro da calça). Depois outro problema: a internet não funcionava. Levaram 3 dias pra consertar, mas consertaram.

O proprietário do apartamento é um personagem: velhinho de 87 anos, polonês, veio para a Argentina com o pai em 1939, com 25 dólares. Casou aqui, começou a fazer vestidos em casa com a mulher, e chegou a ter uma fábrica de pulôveres com 40 empregados. Ontem ele saiu para desanuviar com a mulher numas termas do interior da Argentina, porque os 3 filhos que moram no exterior não ligam pra ele faz tempo e isso o deixou estressado. Ótimo velhinho, parece ter no máximo 70 anos. Me mostrou o marca-passo no peito, com orgulho.

Cheguei com pressa de conhecer a cidade e em cinco dias fiz muita coisa. Caminhei por todas as regiões do enorme bairro de Palermo, onde fica meu apartamento. Palermo Hollywood, apesar da presença das produtoras de vídeo e cinema, é tradicional, tranqüilo e combina lojinhas antigas com cafés e restaurantes modernos e chiques. Foi aqui, perto de casa, que comi o primeiro bife de chorizo transcendente em solo argentino: a carne não se desmanchava; ela se despedaçava na boca. Palermo Soho é o sub-bairro mais agitado de todos, cheio de bares, livrarias, restaurantes, boutiques, turistas. Tudo muito agradável e de alto nível, mas ainda assim há um leve toque de experiência globalizada, com enormes placares da Heineken ou do Johnnie Walker, pubs irlandeses e hippies (que são absolutamente idênticos em todo o cosmos). Folhas outonais formam um carpete úmido e fofo sobre as calçadas. Até ontem, o calor era pantanoso, como o porto-alegrense. Os porteños estão apavorados com a temperatura desse início de outono e não param de falar em aquecimento global.

Percorri a pé o Microcentro, Recoleta, Puerto Madero, as avenidas Corrientes, Santa Fe, Córdoba... caminhei como se a vida dependesse disso. Fui a San Telmo a pé numa terça à noite e fui surpreendido por um temporal. O bairro ficou meio às escuras, iluminado por raios. Ficou na memória. Caminhei de manhã, de dia, à noite, de madrugada. Entrei em livrarias, galerias estranhas, cinemas, cafés antigos em que casais de meia-idade dançam tango no andar de cima e não toleram ser fotografados. Andei pelos Bosques de Palermo até as pernas bambearem. São parques bonitos e bem cuidados, embora a proximidade de avenidas movimentadas eliminem qualquer ilusão de bucolismo.

Um destaque: um amigo brasileiro que mora aqui me levou a um lugar chamado La Catedral de Almagro, em Almagro, perto do centro, na rua Sarmiento, altura do número 4000. Não há placa na frente. É um galpão enorme decorado com móveis antigos e memorabilia trash vagamente relacionada ao tango. No fim da tarde, dão aulas de tango. À noite, jovens dançam tango clássico e moderno, inclusive com versões meio new-age de gosto duvidosíssimo. Mas é lindo: o ambiente é impactante, escuro. No alto, um coração vermelho-vivo feito de tecido e arame. Numa das paredes, um sarcófago de vidro com uma fotografia em tamanho quase real de Carlos Gardel sorrindo.

Passei a madrugada de ontem e quase todo o dia de hoje armando uma viagem para Ushuaia, onde está acontecendo a Bienal del Fin del Mundo. Vou pra lá na semana que vem. Comprar passagens pela Aerolineas Argentinas, para um estrangeiro, pode ser uma experiência tortuosa e frustrante. Mas consegui. Vou ficar no Hostal Malvinas. Só tenho medo de não voltar.