Diário porteño 2 : edição especial Ushuaia
Alou,
Bom, passou bastante tempo desde o último e-mail que mandei, então alguns dias em Buenos Aires serão descritos resumidamente: choveu muito. Com isso, fiz menos passeios e fiquei mais bundando pela cidade, o que também foi ótimo, porque só assim, sem saber muito bem o que fazer e com um pouco de tédio, a gente se sente um pouco morando na cidade, em vez de fazendo turismo. Caminhei por recantos ainda desconhecidos de Palermo (o bairro é gigante), testei restaurantes e fui ao Jardim Botânico, que é um lugar muito legal. O parque é pequeno, mas bonito e muito bem cuidado, e fica no meio de uma zona movimentada da cidade, ao lado da Plaza Italia, de modo que não parece um recanto destacado do resto e sim uma parte da cidade, com avenidas passando perto. Essa integração ao urbano contribui pro clima do lugar, e isso se soma ao fato de que ele fica cheio de pessoas lendo, namorando, lendo, tirando fotos, lendo, estudando, lendo. Além disso, é infestado de gatos. São dezenas ou, arrisco dizer, centenas deles que ficam zanzando ou dormindo ao sol, como se fossem endêmicos do lugar. Não fogem das pessoas, como se fossem cachorros. Também dei umas bandas à noite com o Leonardo e conheci melhor a turma da Interzona, editora que vai publicar o Mãos de Cavalo aqui - fizemos uma jantinha na casa do Liniers, o quadrinista jovem mais famoso da Argentina. A biblioteca do cara é incrível, quase todos os livros são hardcover, coisa de museu.
Bom. Isso resume uns 4 ou 5 dias de Buenos Aires. Depois disso fui pra Ushuaia. A cidade se autodenomina O Fim do Mundo e fica lá na pontinha da Terra do Fogo. É a cidade mais austral da América. A umas 4 horas de avião de Buenos Aires. Sempre idealizei esse lugar como um dos pontos do planeta que gostaria de conhecer um dia, e bem, lá estava eu. Quando o avião sobrevoou a pontinha da Cordilheira dos Andes eu já soube que ia ser um choque. A vista aérea de picos nevados é hipnotizante. Pousamos ao fim da tarde a a visão foi linda. A cidade tem 50 mil habitantes e fica à margem do Canal Beagle. Há um porto, depois um aclive sobre o qual a cidade se esparrama, com casinhas simples, nada com mais de 3 andares. Num certo ponto do aclive as casas somem e começam os bosques marrom-avermelhados salpicados de neve. E mais acima surgem as montanhas nevadas que cercam toda a baía. É lindíssimo.
Logo de cara dá pra sacar que essa coisa de Fim do Mundo é uma grande sacada turística (que deve ter origem mais ou menos legítima, já que a cidade foi criada pelos argentinos para marcar território na disputa da Terra do Fogo com os chilenos e para ser uma colônia penal da qual era impossível fugir devido às condições naturais grotescas). Em algum momento, Ushuaia foi mesmo o fim do mundo, mas hoje é uma cidadezinha de interior pacata com toda a infra para turistas. Há DOIS pubs irlandeses, uma dúzia de locutórios com internet, dezenas de restaurantes de bom nível, hotéis e albergues a dar com o pau, meia dúzia de agências turísticas. Nada disso tira o impacto da paisagem e a sensação de estar num lugar remoto, mas ao mesmo tempo... lá estão as MESMAS coisas que se encontra em qualquer lugar que turistas gostam de visitar.
Em termos culinários, além das obrigatórias parrillas (com cordeiros inteiros assando no fogo nas vitrines dos restaurantes), o destaque é a centolla ou caranguejo-aranha ou sei lá como se chama esse monstro em português. É um caranguejo gigante e espinhento com pernas de uns 40cm que parece um siri que passou milhões de anos evoluindo no inferno. O gosto não é muito diferente de caranguejo, mas eles adoram e consideram uma atração local. É muito bom, mas de uma perspectiva gourmet não tem nada especial. Mais legal é VER o bicho nos aquários dos restaurantes. Pesadelos pra várias noites.
Outro destaque é a cerveja BEAGLE, uma cerveja artesanal local absurdamente boa. Tomei as três variedades: "rúbia", "roja" e "negra". A primeira é clara e meio adocicada e tem cheiro de pão embolorado, o que, pensando bem, atesta a qualidade incomparável da bebida. A segunda é vermelha, meio amarga e tem um sabor simplesmente estupendo, nada se compara. A terceira é uma Guinness melhorada. E tenho dito.
Cheguei na quarta-feira. Quinta, peguei a excursão mais padrão de Ushuaia, que é o circuito Trem do Fim do Mundo + Parque Nacional. O trem é famoso e faz a gente pensar em algo muito perigoso e desolado. Talvez tenha sido mesmo, na época em que os prisioneiros de Ushuaia o construíram (fim do século 19) para buscar madeira pra construir a cidade. Mas em 1949 o trem foi destruído por um TERREMOTO e só foi recuperado parcialmente em 1994, quando um ricaço reconstruiu 7km dos 25km originais e o negócio se transformou num caça-turistas. Não me entendam mal: o trajeto do trem é magnifíco - montanhas nevadas banhadas pelo sol, campos desmatados, bosques, cavalos extremamente peludos, riachos - e a história dele é genial. Mas durante toda a viagem fica rodando uma fita em trocentas línguas como um guia dos infernos em alto-falantes dentro do trem, e dá pra notar as partes do trajeto que são bem cuidadinhas pra impressionar os tiozinhos da Escandinávia ou do Japão que vão pra lá. Essa narração que fica rolando é apavorante e ela chega às raias de arruinar toda a experiência. A mulher que narra os trechos em português é minha inimiga, seja quem for.
Quanto ao Parque Nacional da Terra do Fogo, é um lugar tão ou mais lindo quanto o trajeto do trem - não, é mais lindo com certeza - e tive a sorte de pagar uma excursão com um guia bacana que não enchia o saco de quem se afastava para perambular sozinho, então aproiveitei bem (embora as histórias do cara fossem boas - por exemplo, a história dos coelhos, que foram trazidos à Terra do Fogo por militares argentinos e obviamente se tornaram uma praga que começou a destruir tudo, então eles trouxeram o lobo cinzento ou algo parecido de algum outro lugar para ser predador do coelho, mas o lobo cinzento não gostava muito de coelho. Ele gostava de comer as aves em extinção da Terra do Fogo, que efetivamente se extingüiram ou quase. Então, em nova investida contra os coelhos, eles foram ao Brasil e trouxeram o vírus da MIXOMATOSE, que reduziu a população de coelhos de 20 milhões para 50 mil, mas eles ainda existem e detonam o Parque e não podem nem ser caçados porque... bem, estão infectados por mixomatose. Clap clap clap, militares argentinos). Passamos pelo Lago Roca - desbunde visual - e depois pela Baía Lapataia, que é simplesmente o lugar mais lindo que eu já vi. Lago, pastos, bosques com folhas marrons, rosas, vermelhas, verdes e laranjas e, ao redor, cadeias de montanhas nevadas. Quando chegamos lá, o céu parcialmente nublado se abriu e a luz do sol transformou o lugar em algo sobrenatural de tão lindo. Fiquei tão chocado que sentei num canto e a excursão quase foi embora sem mim.
Fiquei cansado pra cacete nesse dia. Mas quando cheguei no hotel tinha um recado pra mim: o trekking ao Cerro Medio ia sair, porque um casal se inscreveu e fechou o grupo. Eu tinha me inscrito nisso na quarta-feira, pensando em dar uma pernada mais violenta pra sentir a NATURALEZA de perto, se é que entendem. Uma caminhada de 6 horas que subia ao cume de uma montanha nos arredores de Ushuaia. Quando recebi o recado, fiquei meio em dúvida. Eu estava cansado demais, e o sininho da INDIADA tava tocando na minha cabeça. Mas outro sininho tocava ao mesmo tempo, o sininho da EXPERIÊNCIA IMPERDÍVEL À VISTA. Resolvi escutar o segundo, fui à agência e paguei a excursão. Descobri que eu ia precisar de traje completo para neve, sob pena de simplesmente congelar no meio do caminho. E eu não tinha nada. Após negociações com o guia para me emprestar botas e uma campera (casaco) impermeável, fui a uma loja e torrei uma grana numa calça impermeável e numa blusa antitérmica. Fui dormir sentindo a dor da facada na minha conta corrente, mas resolvi dar chance à aventura antes de me arrepender.
Minhas melhores expectativas não chegariam nem perto do que realmente aconteceu. A subida ao cume do Cerro Medio, uma montanha nevada linda de 850m de altura que fica logo atrás de Ushuaia, foi uma das coisas mais sensacionais que fiz na vida. Começamos - eu, mais um casal, uma dupla de amigas e o guia - cruzando uma trilha de alguns quilômetros no meio de um bosque. Uns 30 ou 40 cm de neve se acumulavam pelo caminho e a vegetação ia se transformando a cada 100 ou 200m de altura: primeiro árvores altas e retas, depois outras de tronco mais curto e retorcido, com as folhas coloridas de marrom, vermelho, laranja e amarelo. Depois nada: só neve e pedras num terreno cada vez mais inclinado que ia se infiltrando no meio das montanhas que, de longe, lá da cidade, pareciam simplesmente inatingíveis. A neve tinha caído recentemente e estava funda e fofa; a perna chegava a afundar nela até a coxa. Eu, que nunca tinha visto neve, fiquei de queixo caído. A textura da neve fofa é como a de uma mousse, um veludo gelado tridimensional que se enrijece ao menor toque. E os paredões de pedra e neve ao redor. E o cume do Cerro Medio à vista, parecendo alto e íngreme demais para chegar a pé. Mas dava pra chegar, e nem era tão difícil, apesar de cansativo pra caramba. Foram mais de três horas pra subir. Lá em cima, uma visão panorâmica de toda a baía de Ushuaia, Canal Beagle, a pontinha da Cordilheira dos Andes, Parque Nacional - enfim, a Terra do Fogo. Embasbacante. O dia estava lindo, ensolarado com poucas nuvens, um frio forte mas tolerável, que só incomodava nos pés, que mesmo dentro da bota sofriam com a umidade do suor e ficavam dormentes quando eu parava de caminhar por uns 30 segundos. No todo, a sensação sublime de estar no alto de uma montanha como essas que se vê em filmes de alpinismo - não tão alta, mas com aparência de ser muito mais alta do que era. Alta o suficiente.
Durante todo o trekking, fomos acompanhados por um cachorro que surgiu do nada ao estacionarmos a van na entrada do bosque e nos seguiu por todo o trajeto até o cume e de volta. Era um pastor alemão que mais parecia um urso, com pêlos grossos e longos, adaptado ao frio. Era brincalhão e meio maluco, e por algum motivo resolveu ir conosco. Chamá-lo-ei de "el pérro", que era como as gurias do grupo se referiam a ele. El pérro tinha sido claramente atropelado há alguns dias, porque tinha feridas enormes semi-cicatrizadas nas duas pernas traseiras. Mesmo assim, corria pela neve com desenvoltura, às vezes se afundando até o focinho para emergir da brancura logo depois, ofegando como uma locomotiva. Ia sempre um pouco à frente, como batedor, talvez convencido de que estava nos protegendo. Adorava buscar gravetos arremessados. Ficava o tempo todo agarrando pedaços de pau com a boca a trazendo a nós. O problema é que ele não se contentava com qualquer graveto. Pedaços de pau pesando menos de dois quilos eram ignorados pela besta; ele os descartava e escolhia outro, em geral uma tora de mais de um metro que mal conseguia arrasatar com os dentes. Eram pedaços de madeiras grandes e pesados demais para serem arremessados. Vendo que não estávamos à altura de seu padrão de selvageria, ele se punha a roer e mordiscar os galhos até não sobrar nada. Fazia isso com tal empenho que sua boca sangrava em profusão, mas el pérro parecia não ligar. Mascar troncos era um de seus passatempos favoritos. Durante todo o trajeto, o cachorro conseguiu se machucar de maneiras diversas. Na verdade, ele foi sangrando durante boa parte do caminho, deixando marcar vermelhas na neve. Tentávamos descobrir como ele tinha se machucado, mas era impossível. Entre uma demonstração espontânea de selvageria canina e outra, ele se aproximava e mendigava carinhos, no que era prontamente atendido. Se afeiçoou especialmente a mim - vide foto. E assim foi durante toda a caminha de seis horas de duração. Houve um trecho mais íngreme da subida, onde a neve era muito profunda, em que el pérro se cansou e simplesmente empacava na frente da gente. Era preciso empurrá-lo ou dar uns tapas em sua ancas para convencê-lo a seguir. Achamos que el pérro ia desistir e estávamos com pena dele, mas ele prosseguiu e num dado momento, perto do cume, depois de comer uns bocados de neve, pareceu recuperar as energias e não empacou mais. No cume, demos uns pedaços de pão pra ele.
Na descida da montanha, o guia disse que a neve profunda nos permitiria tomar um atalho. O atalho era descer por uma encosta muito íngreme da montanha, impossível de subir a pé, mas descer... era a coisa mais divertida do mundo. Destrambelhamos aos saltos e escorregões pela neve, tropeçando e afundando como abobados. Lembrei do que a Tainá tinha me contado sobre a neve: ela nos transforma em crianças. É a verdade. Estávamos todos, o guia incluído, rindo à toa, jogando bolas de neve na nuca um do outro, deslizando de bunda e batendo corrida com el pérro, que tinha a manha de deslizar de peito na neve e nos atropelava sem aviso com seus 30 ou 40 quilos de disposição lupina.
Até agora, estou com dores horrendas na coxas e na panturrilha. Tenho dezenas de fotos, e algumas estão em anexo.
abraços,
DG


Bom, passou bastante tempo desde o último e-mail que mandei, então alguns dias em Buenos Aires serão descritos resumidamente: choveu muito. Com isso, fiz menos passeios e fiquei mais bundando pela cidade, o que também foi ótimo, porque só assim, sem saber muito bem o que fazer e com um pouco de tédio, a gente se sente um pouco morando na cidade, em vez de fazendo turismo. Caminhei por recantos ainda desconhecidos de Palermo (o bairro é gigante), testei restaurantes e fui ao Jardim Botânico, que é um lugar muito legal. O parque é pequeno, mas bonito e muito bem cuidado, e fica no meio de uma zona movimentada da cidade, ao lado da Plaza Italia, de modo que não parece um recanto destacado do resto e sim uma parte da cidade, com avenidas passando perto. Essa integração ao urbano contribui pro clima do lugar, e isso se soma ao fato de que ele fica cheio de pessoas lendo, namorando, lendo, tirando fotos, lendo, estudando, lendo. Além disso, é infestado de gatos. São dezenas ou, arrisco dizer, centenas deles que ficam zanzando ou dormindo ao sol, como se fossem endêmicos do lugar. Não fogem das pessoas, como se fossem cachorros. Também dei umas bandas à noite com o Leonardo e conheci melhor a turma da Interzona, editora que vai publicar o Mãos de Cavalo aqui - fizemos uma jantinha na casa do Liniers, o quadrinista jovem mais famoso da Argentina. A biblioteca do cara é incrível, quase todos os livros são hardcover, coisa de museu.
Bom. Isso resume uns 4 ou 5 dias de Buenos Aires. Depois disso fui pra Ushuaia. A cidade se autodenomina O Fim do Mundo e fica lá na pontinha da Terra do Fogo. É a cidade mais austral da América. A umas 4 horas de avião de Buenos Aires. Sempre idealizei esse lugar como um dos pontos do planeta que gostaria de conhecer um dia, e bem, lá estava eu. Quando o avião sobrevoou a pontinha da Cordilheira dos Andes eu já soube que ia ser um choque. A vista aérea de picos nevados é hipnotizante. Pousamos ao fim da tarde a a visão foi linda. A cidade tem 50 mil habitantes e fica à margem do Canal Beagle. Há um porto, depois um aclive sobre o qual a cidade se esparrama, com casinhas simples, nada com mais de 3 andares. Num certo ponto do aclive as casas somem e começam os bosques marrom-avermelhados salpicados de neve. E mais acima surgem as montanhas nevadas que cercam toda a baía. É lindíssimo.
Logo de cara dá pra sacar que essa coisa de Fim do Mundo é uma grande sacada turística (que deve ter origem mais ou menos legítima, já que a cidade foi criada pelos argentinos para marcar território na disputa da Terra do Fogo com os chilenos e para ser uma colônia penal da qual era impossível fugir devido às condições naturais grotescas). Em algum momento, Ushuaia foi mesmo o fim do mundo, mas hoje é uma cidadezinha de interior pacata com toda a infra para turistas. Há DOIS pubs irlandeses, uma dúzia de locutórios com internet, dezenas de restaurantes de bom nível, hotéis e albergues a dar com o pau, meia dúzia de agências turísticas. Nada disso tira o impacto da paisagem e a sensação de estar num lugar remoto, mas ao mesmo tempo... lá estão as MESMAS coisas que se encontra em qualquer lugar que turistas gostam de visitar.
Em termos culinários, além das obrigatórias parrillas (com cordeiros inteiros assando no fogo nas vitrines dos restaurantes), o destaque é a centolla ou caranguejo-aranha ou sei lá como se chama esse monstro em português. É um caranguejo gigante e espinhento com pernas de uns 40cm que parece um siri que passou milhões de anos evoluindo no inferno. O gosto não é muito diferente de caranguejo, mas eles adoram e consideram uma atração local. É muito bom, mas de uma perspectiva gourmet não tem nada especial. Mais legal é VER o bicho nos aquários dos restaurantes. Pesadelos pra várias noites.
Outro destaque é a cerveja BEAGLE, uma cerveja artesanal local absurdamente boa. Tomei as três variedades: "rúbia", "roja" e "negra". A primeira é clara e meio adocicada e tem cheiro de pão embolorado, o que, pensando bem, atesta a qualidade incomparável da bebida. A segunda é vermelha, meio amarga e tem um sabor simplesmente estupendo, nada se compara. A terceira é uma Guinness melhorada. E tenho dito.
Cheguei na quarta-feira. Quinta, peguei a excursão mais padrão de Ushuaia, que é o circuito Trem do Fim do Mundo + Parque Nacional. O trem é famoso e faz a gente pensar em algo muito perigoso e desolado. Talvez tenha sido mesmo, na época em que os prisioneiros de Ushuaia o construíram (fim do século 19) para buscar madeira pra construir a cidade. Mas em 1949 o trem foi destruído por um TERREMOTO e só foi recuperado parcialmente em 1994, quando um ricaço reconstruiu 7km dos 25km originais e o negócio se transformou num caça-turistas. Não me entendam mal: o trajeto do trem é magnifíco - montanhas nevadas banhadas pelo sol, campos desmatados, bosques, cavalos extremamente peludos, riachos - e a história dele é genial. Mas durante toda a viagem fica rodando uma fita em trocentas línguas como um guia dos infernos em alto-falantes dentro do trem, e dá pra notar as partes do trajeto que são bem cuidadinhas pra impressionar os tiozinhos da Escandinávia ou do Japão que vão pra lá. Essa narração que fica rolando é apavorante e ela chega às raias de arruinar toda a experiência. A mulher que narra os trechos em português é minha inimiga, seja quem for.
Quanto ao Parque Nacional da Terra do Fogo, é um lugar tão ou mais lindo quanto o trajeto do trem - não, é mais lindo com certeza - e tive a sorte de pagar uma excursão com um guia bacana que não enchia o saco de quem se afastava para perambular sozinho, então aproiveitei bem (embora as histórias do cara fossem boas - por exemplo, a história dos coelhos, que foram trazidos à Terra do Fogo por militares argentinos e obviamente se tornaram uma praga que começou a destruir tudo, então eles trouxeram o lobo cinzento ou algo parecido de algum outro lugar para ser predador do coelho, mas o lobo cinzento não gostava muito de coelho. Ele gostava de comer as aves em extinção da Terra do Fogo, que efetivamente se extingüiram ou quase. Então, em nova investida contra os coelhos, eles foram ao Brasil e trouxeram o vírus da MIXOMATOSE, que reduziu a população de coelhos de 20 milhões para 50 mil, mas eles ainda existem e detonam o Parque e não podem nem ser caçados porque... bem, estão infectados por mixomatose. Clap clap clap, militares argentinos). Passamos pelo Lago Roca - desbunde visual - e depois pela Baía Lapataia, que é simplesmente o lugar mais lindo que eu já vi. Lago, pastos, bosques com folhas marrons, rosas, vermelhas, verdes e laranjas e, ao redor, cadeias de montanhas nevadas. Quando chegamos lá, o céu parcialmente nublado se abriu e a luz do sol transformou o lugar em algo sobrenatural de tão lindo. Fiquei tão chocado que sentei num canto e a excursão quase foi embora sem mim.
Fiquei cansado pra cacete nesse dia. Mas quando cheguei no hotel tinha um recado pra mim: o trekking ao Cerro Medio ia sair, porque um casal se inscreveu e fechou o grupo. Eu tinha me inscrito nisso na quarta-feira, pensando em dar uma pernada mais violenta pra sentir a NATURALEZA de perto, se é que entendem. Uma caminhada de 6 horas que subia ao cume de uma montanha nos arredores de Ushuaia. Quando recebi o recado, fiquei meio em dúvida. Eu estava cansado demais, e o sininho da INDIADA tava tocando na minha cabeça. Mas outro sininho tocava ao mesmo tempo, o sininho da EXPERIÊNCIA IMPERDÍVEL À VISTA. Resolvi escutar o segundo, fui à agência e paguei a excursão. Descobri que eu ia precisar de traje completo para neve, sob pena de simplesmente congelar no meio do caminho. E eu não tinha nada. Após negociações com o guia para me emprestar botas e uma campera (casaco) impermeável, fui a uma loja e torrei uma grana numa calça impermeável e numa blusa antitérmica. Fui dormir sentindo a dor da facada na minha conta corrente, mas resolvi dar chance à aventura antes de me arrepender.
Minhas melhores expectativas não chegariam nem perto do que realmente aconteceu. A subida ao cume do Cerro Medio, uma montanha nevada linda de 850m de altura que fica logo atrás de Ushuaia, foi uma das coisas mais sensacionais que fiz na vida. Começamos - eu, mais um casal, uma dupla de amigas e o guia - cruzando uma trilha de alguns quilômetros no meio de um bosque. Uns 30 ou 40 cm de neve se acumulavam pelo caminho e a vegetação ia se transformando a cada 100 ou 200m de altura: primeiro árvores altas e retas, depois outras de tronco mais curto e retorcido, com as folhas coloridas de marrom, vermelho, laranja e amarelo. Depois nada: só neve e pedras num terreno cada vez mais inclinado que ia se infiltrando no meio das montanhas que, de longe, lá da cidade, pareciam simplesmente inatingíveis. A neve tinha caído recentemente e estava funda e fofa; a perna chegava a afundar nela até a coxa. Eu, que nunca tinha visto neve, fiquei de queixo caído. A textura da neve fofa é como a de uma mousse, um veludo gelado tridimensional que se enrijece ao menor toque. E os paredões de pedra e neve ao redor. E o cume do Cerro Medio à vista, parecendo alto e íngreme demais para chegar a pé. Mas dava pra chegar, e nem era tão difícil, apesar de cansativo pra caramba. Foram mais de três horas pra subir. Lá em cima, uma visão panorâmica de toda a baía de Ushuaia, Canal Beagle, a pontinha da Cordilheira dos Andes, Parque Nacional - enfim, a Terra do Fogo. Embasbacante. O dia estava lindo, ensolarado com poucas nuvens, um frio forte mas tolerável, que só incomodava nos pés, que mesmo dentro da bota sofriam com a umidade do suor e ficavam dormentes quando eu parava de caminhar por uns 30 segundos. No todo, a sensação sublime de estar no alto de uma montanha como essas que se vê em filmes de alpinismo - não tão alta, mas com aparência de ser muito mais alta do que era. Alta o suficiente.
Durante todo o trekking, fomos acompanhados por um cachorro que surgiu do nada ao estacionarmos a van na entrada do bosque e nos seguiu por todo o trajeto até o cume e de volta. Era um pastor alemão que mais parecia um urso, com pêlos grossos e longos, adaptado ao frio. Era brincalhão e meio maluco, e por algum motivo resolveu ir conosco. Chamá-lo-ei de "el pérro", que era como as gurias do grupo se referiam a ele. El pérro tinha sido claramente atropelado há alguns dias, porque tinha feridas enormes semi-cicatrizadas nas duas pernas traseiras. Mesmo assim, corria pela neve com desenvoltura, às vezes se afundando até o focinho para emergir da brancura logo depois, ofegando como uma locomotiva. Ia sempre um pouco à frente, como batedor, talvez convencido de que estava nos protegendo. Adorava buscar gravetos arremessados. Ficava o tempo todo agarrando pedaços de pau com a boca a trazendo a nós. O problema é que ele não se contentava com qualquer graveto. Pedaços de pau pesando menos de dois quilos eram ignorados pela besta; ele os descartava e escolhia outro, em geral uma tora de mais de um metro que mal conseguia arrasatar com os dentes. Eram pedaços de madeiras grandes e pesados demais para serem arremessados. Vendo que não estávamos à altura de seu padrão de selvageria, ele se punha a roer e mordiscar os galhos até não sobrar nada. Fazia isso com tal empenho que sua boca sangrava em profusão, mas el pérro parecia não ligar. Mascar troncos era um de seus passatempos favoritos. Durante todo o trajeto, o cachorro conseguiu se machucar de maneiras diversas. Na verdade, ele foi sangrando durante boa parte do caminho, deixando marcar vermelhas na neve. Tentávamos descobrir como ele tinha se machucado, mas era impossível. Entre uma demonstração espontânea de selvageria canina e outra, ele se aproximava e mendigava carinhos, no que era prontamente atendido. Se afeiçoou especialmente a mim - vide foto. E assim foi durante toda a caminha de seis horas de duração. Houve um trecho mais íngreme da subida, onde a neve era muito profunda, em que el pérro se cansou e simplesmente empacava na frente da gente. Era preciso empurrá-lo ou dar uns tapas em sua ancas para convencê-lo a seguir. Achamos que el pérro ia desistir e estávamos com pena dele, mas ele prosseguiu e num dado momento, perto do cume, depois de comer uns bocados de neve, pareceu recuperar as energias e não empacou mais. No cume, demos uns pedaços de pão pra ele.
Na descida da montanha, o guia disse que a neve profunda nos permitiria tomar um atalho. O atalho era descer por uma encosta muito íngreme da montanha, impossível de subir a pé, mas descer... era a coisa mais divertida do mundo. Destrambelhamos aos saltos e escorregões pela neve, tropeçando e afundando como abobados. Lembrei do que a Tainá tinha me contado sobre a neve: ela nos transforma em crianças. É a verdade. Estávamos todos, o guia incluído, rindo à toa, jogando bolas de neve na nuca um do outro, deslizando de bunda e batendo corrida com el pérro, que tinha a manha de deslizar de peito na neve e nos atropelava sem aviso com seus 30 ou 40 quilos de disposição lupina.
Até agora, estou com dores horrendas na coxas e na panturrilha. Tenho dezenas de fotos, e algumas estão em anexo.
abraços,
DG


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