amores expresos, blog do DANIEL

Friday, May 18, 2007

De volta

Já de volta a São Paulo, ruminando fotos e memórias. Tenho uma história rabiscada na mente. Acho que ela poderia se passar em qualquer lugar, mas se passará em Buenos Aires, uma cidade de carnes tenras, mulheres elegantes e ruas planas que mimam os andarilhos com cafés e livrarias inesgotáveis. Buenos Aires mudou um pouco a minha vida, nem tanto por suas próprias características, mas por ter me acolhido num breve exílio que me permitiu enxergar certas coisas com mais clareza. Nesse sentido, toda a idéia desse projeto se legitima: nada melhor para um escritor (ou pelo menos para UM escritor, ou seja, eu) do que ter a oportunidade de tomar um pouco de distância de tudo que o precedeu até então. O que chamamos de inspiração tem muito a ver com conseguir estranhar a vida por um instante - não mais reconhecê-la e, apavorado, ter de lidar com isso. Escrevo porque a literatura é minha maneira de expressar esse estranhamento. Eu poderia guardá-lo, mas não consigo. O estranhamento alheio pode ser pertinente ou impertinente. Meu desafio é tornar o meu o mais pertinente possível para o leitor - e isso, meus caros, é um processo violento que recusa qualquer idealização. Não ter conseguido evitar a literatura quando ainda era tempo explica uma boa parte do sofrimento que conheço hoje em dia. Há sofrimentos muito piores. Me considero feliz porque sei que escolhi bem. Hoje entendo muito melhor uma frase de Bataille que usamos em 2001 para apresentar o selo editorial Livros do Mal ao mundo: "A literatura não é inocente, e, culpada, ela enfim deveria se confessar como tal." Eu confesso. Confesso tudo. Sou culpado e, nos próximos meses, tentarei redigir mais um capítulo dessa confissão.

Esse é o último post desse blog. Despeço-me com um álbum de fotos.

Abraços aos que acompanharam esses relatos,

DG